A Versatilidade da Geoforense em (Possíveis) Crimes Violentos

Marcelo Tortolero A. L.

Graduando em Engenharia Geológica e Presidente do UFPel IFG Student Chapter. Atua na área de solos para fins forenses, com ênfase em sedimentos costeiros Quaternários.

 

Tem se tornado cada vez mais comum nos depararmos com casos em que vestígios geológicos foram utilizados como evidências de um crime, principalmente quando se trata de correlações entre suspeitos, vítimas, álibis e cenas de crime. Hoje falaremos brevemente sobre alguns momentos em que a geologia forense foi utilizada de forma peculiar.

 

Mas antes de tratarmos desses casos peculiares, você sabe quando tudo começou? Por isso daremos uma atenção ao primeiro caso reportado em que a geologia foi, depois de diversas histórias do grande detetive fictício Sherlock Holmes, utilizada no âmbito criminal.

 

O assassinato de uma jovem moça chamada Eva Disch, no início do século XX, mais especificamente no ano de 1904, na cidade alemã de Frankfurt ficou marcado na história como o primeiro caso em que evidências geológicas foram utilizadas em um caso criminal. O cientista forense chamado George Popp foi o protagonista de tal feito, devido à sua minuciosidade ao analisar os vestígios presentes na cena do crime.

 

O principal suspeito, Karl Laubach, assim como Julius de “Todo Mundo Odeia o Chris”, possuía dois empregos: parte do tempo trabalhava em uma usina de gás movida a carvão e na outra metade do dia, em uma pedreira. Karl também era conhecido por ser um grande apreciador de tabaco, na forma de rapé.

 

Neste caso, a arma do crime foi o cachecol da própria vítima, entretanto o criminoso deixou seu lenço de bolso (SIM, muito utilizado) próximo ao corpo. Tal “descuido” por parte do infrator provavelmente se deu devido à falta de recursos e tecnologia disponível para os cientistas forenses da época, fazendo com que Karl não tivesse o cuidado de remover seu lenço do local. Nos dias de hoje, com os testes de DNA disponíveis para os investigadores forenses, esquecer um lenço usado na cena do crime é “cana” na certa. Mas como essa tecnologia ainda não estava disponível na época, George Popp resolveu buscar por algum vestígio que de fato incriminasse Karl, e foi aí que a sua minuciosidade e “genialidade” entrou em jogo (façamos de conta que Popp não havia lido “Um Estudo em Vermelho” do Sir Arthur Conan Doyle e que ele não tirou essa ideia de lá).

 

Ao analisar microscopicamente o lenço, Popp observou pequenos fragmentos de rapé e carvão no muco presente. Além disso, também foi observada uma grande variedade de minerais, com destaque para hornblenda, um anfibólio muito comum em rochas ígneas, mas que também pode ocorrer em alguns tipos de rochas metamórficas como gnaisses, xistos, e obviamente, em anfibolitos.

 

 
Portanto, o conjunto desses três vestígios observados no lenço apontava Karl Laubach como culpado, mas como estamos falando de ciências forenses e mais especificamente de microvestígios, devemos ter cautela: havia então, uma alta probabilidade de aquele lenço ser de Karl, mas seria mesmo ele o culpado pelo homicídio de Eva? Ao analisar o corpo da vítima, Popp identificou a presença de carvão e alguns minerais sob as unhas da vítima, inclusive a hornblenda (aquele mineral já encontrado no lenço de Karl).

 

Além disso, Popp também teve acesso as roupas que Karl Laubach usava no dia do homicídio e coletou amostras de solo. A análise dessas amostras de solos, recuperadas das roupas do suspeito, indicou uma grande similaridade com os solos que compunham o trajeto entre a cena do crime e a casa do suspeito. Ao apresentarem os vestígios encontrados por Popp em um interrogatório, Karl Laubach confessou o homicídio de Eva Disch.

Agora vamos tratar de uma aplicação da geoforense que não é tão usual quanto às correlações feitas por Popp. Bom, pelo menos não no Brasil. Você sabe quando é que os caminhos da geologia forense e da medicina legal se cruzam?

 

No ano de 2017 foi publicado um artigo científico na “Revista Brasileira de Criminalística”, a qual reportava o primeiro caso em que foi utilizada a análise de diatomáceas para identificar a causa da morte de um cadáver encontrado às margens de um corpo de água. Embora já utilizada em outros países desde o século passado, essa técnica só foi aplicada no Brasil pela primeira vez há 4 anos.

 

O trabalho reporta um caso na qual um jovem de 20 anos foi encontrado às margens da Ilha dos Marinheiros, localizada no município de Porto Alegre (RS). A vítima chegou ao Instituto Médico Legal de Porto Alegre com um ferimento na sobrancelha, indicando a ocorrência de uma colisão com algum objeto que possivelmente desencadeou em uma parcial perda de consciência e posterior afogamento. O diagnóstico dado pelo médico legista de plantão no dia do ocorrido foi o de morte por afogamento.

 

Portanto, foi realizado um estudo no tecido pulmonar da vítima para a identificação da presença de diatomáceas, confirmando assim a causa de morte por afogamento. Também foi constatado que a vítima inalou tanto a água quanto os sedimentos do Lago Guaíba. Em casos como esse, geólogos forenses podem atuar auxiliando tanto na identificação das diatomáceas presentes nos sedimentos da região, para que esses dados sejam comparados às diatomáceas identificadas nos tecidos do trato respiratório das vítimas de afogamento, quanto na identificação das diatomáceas nos próprios tecidos.

 

A tendência é que cada vez mais geólogos forenses atuem em casos de suspeita de afogamento, como esse. Essa análise de diatomáceas é muito importante, pois é sabido que não é incomum o encontro de cadáveres “desovados” em corpos de água, com o intuito de induzir a perícia a acreditar que a causa da morte da vítima foi o afogamento, quando na verdade o cadáver é produto de um homicídio.

 

Agora trataremos do caso mais sucinto dentre os que serão apresentados aqui, e talvez o mais peculiar. Um caso reportado por Kenneth Pye em seu livro “Geological and Soil Evidence: Forensic Applications”.

 

Na cidade praiana de Skegness, localizada no condado de Lincolnshire no Reino Unido, foi encontrada uma vítima de homicídio por asfixia. Os investigadores sabiam que a vítima havia sido asfixiada na praia, porém tinham o interesse em saber se a vítima havia sido asfixiada no local onde o corpo foi encontrado ou em uma localidade distinta.

 

Então, o papel da geologia forense neste caso foi crucial para responder esse questionamento. Através de uma análise comparativa com o uso de peneiramento a seco com os sedimentos recolhidos da boca e do trato respiratório da vítima, da amostra coletada próximo à cabeça da vítima, e de uma terceira amostra coletada a 3 metros de distância do cadáver, foi possível concluir que a vítima, muito possivelmente, foi asfixiada no local em que foi encontrada.

 

Os três casos aqui relatados demonstram a versatilidade da geologia para auxiliar na solução de crimes. Dois deles classificados como “crimes violentos letais intencionais” (CVLI), e um caso de acidente. Entretanto, é importante destacar que, em casos semelhantes ao “acidente” reportado, a análise de diatomáceas se faz necessária para identificar apenas a causa da morte (e não toda a dinâmica da cena), tendo em vista que diversas dinâmicas podem resultar em mortes por afogamento, até mesmo crimes violentos quando tratamos de afogamento forçado.

 

Compartilhe:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on pinterest
Pinterest
Share on linkedin
LinkedIn

Deixe uma resposta

Veja Também

Posts Relacionados

pt_BRPT_BR
%d blogueiros gostam disto: