Crônicas de Baixão I – Ainda existem os orelhas-secas?

Lúcio e Diorídio haviam sido garimpeiros.

 

Eu os conheci na primeira empresa de mineração em que trabalhei, na prospecção de ouro aluvionar no Mato Grosso. Em determinado momento da vida, preferiram um pouco de segurança em uma “gata”, às incertezas totais da vida de garimpo.

 

 

“Gata”, para quem não sabe, é como são chamadas as empresas de mineração pelo interior obscuro da Amazônia. Podem ser sérias ou daquelas que só arranham seus funcionários, verdadeiras organizações criminosas, alheias a legislações trabalhistas, ambientais e minerais, que aprisionam e abusam de jovens sem instrução, cooptados nas cidades através de falsas promessas e vales de pagamento impossível.

 

Lúcio era forte com um touro, abria catas e trincheiras em ritmo que o colocava como líder de qualquer parelha. Diorídio, mais velho, mas que não aceitava ser superado pelo amigo, carregava centenas de quilos, erguendo máquinas e mantimentos, caminhando enormes distâncias como poucos atletas modernos conseguiriam. De vez em quando, ainda salvavam as vidas de geólogos inexperientes que se metiam a valentes com peões rudes, em corruptelas ou picadas no meio do mato.

 

A amizade deles foi forjada entre lama, barulho de moto bomba e moto serra, água barrenta, fumaça de palheiro e tobata, assobio do biscateiro. Sobre cascalho, areia, piçarra e ouro, desenvolveram moral e parceria incompreensíveis para civilizados, respeito por condutas e não por posições sociais e metas a serem atingidas, muito maiores que as definidas em regras de hipócritas governanças corporativas.

 

Há milhares, se não já milhões, de indivíduos como eles entranhados na mata dos estados do Pará, Rondônia, Mato Grosso, Amazonas…a imensa maioria classificados como garimpeiros. Esperançosos por riquezas e confortos, iludidos por sonhos de nirvanas, entorpecidos pelo álcool e maconha, contaminados por doenças tropicais, apaixonados por prostitutas, cidadãos brasileiros. Massa de manobra de empresários ricos, políticos gananciosos e elites civis e militares coniventes, incentivadores das irregularidades que transformam o Brasil na verdadeira galinha dos ovos de ouro.

 

Não há mais na verdade, por trás da máscara que se coloca à frente de criminosos de colarinho branco e suntuosas mansões, o tal do inocente garimpo ilegal no Brasil: há extração criminosa de nossos recursos minerais, patrocinada por elites abastadas, quase sempre entronada em altos cargos administrativos e que manipulam as agências de fiscalização. Em suma, escárnio contra nossa sociedade, sangria das riquezas do subsolo.

 

Se ainda na ativa, Lúcio e Diorídio devem estar admirados de como as poderosas retroescavadeiras, os modernos bico-jato e os veículos de primeira linha chegaram ao Paranaíta, Jamanxim, Crepori, Peixoto, Peixotinho, Rosas de Maio, Rato, Aripuanã…teria sido tão mais fácil. As “gatas” evoluíram, a quiçaça está bem mais rala, o mercúrio e o cianeto cada vez mais abundantes.

 

 

Desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, muita coisa mudou no Brasil. A Rádio Nacional da Amazônia (“…um lugar onde a crise não chegou…”) já não é a única forma de comunicação entre garimpeiros e familiares, Serra Pelada entrou para a história, tribos inteiras de indígenas foram dizimadas, o espólio de Ariosto da Riva é disputado ferozmente.

 

Só não mudaram a realidade tétrica dos garimpeiros, a malária e a leishmaniose, herança de todos os brasileiros indo pelo ralo e a falsa lenda que nossa sociedade midiática preserva sobre os mineradores artesanais, com suas bateias e cobra fumando.

 

 

 

 

 

Dr. Fábio Augusto da Silva Salvador

Geólogo (Unesp) e Doutor em Engenharia Mineral (USP). Perito Criminal há 27 anos, sendo os últimos 17 na Polícia Federal. Ex-Diretor Técnico-Científico e atual Representante da Initiative on Forensic Geology (IUGS-IFG) na América Latina.

 

 

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