O óbvio da falta de respeito pela Ciência, ou: as consequências vêm depois



Em 25 de abril de 1982, a Rede Globo de Televisão se arriscou como nunca antes o fizera.

A série televisiva COSMOS, sucesso internacional apresentado por seu criador, o cientista Carl Sagan, invadiu o horário nobre do domingo, logo após o Fantástico. Foi um choque! Planetas, galáxias, estrelas, anos-luz, buracos negros, poeira de estrelas…tudo apresentado de forma elegante, agradável e instigante para as tradicionais famílias brasileiras, em horário mais que nobre.

Para mim e para milhares de adictos do conhecimento científico parecia ser a chegada de uma nova era! O método científico e a sabedoria filosófica sustentada em evidências seriam servidas após a pizza do domingo, as 23:15!

Tênue farfalhar de esperanças…no domingo seguinte, esperando por novas conversas com o cético Sagan, com as imagens reais de planetas próximos, divagações sobre nossa pequenês astronômica, atentos à programação…surge …Bananas, o filme. A divertida sátira de Woody Allen usurpou Cosmos e jogou a série científica para os confins dos domingos pela manhã, próximo ao Globo Rural.

Lembro que à época, desnorteados e sem o Google para socorro, alguns poucos atrevidos começamos a tentar entender essa mudança. Ibope, não foi…a série começou muito forte, como em todos os outros países. Um colega “antenado” comentou: “censura”, “igreja”, afinal Sagan era tido como ateu…Tristes, perdemos muitos capítulos, nós proto-cientistas e, menos tristes, aqueles que normalmente se entorpeciam por qualquer coisa após os Gols do Fantástico. O tempo passou.

Certo dia, já no século 21, participei de uma discussão deliciosa sobre as missões Pioneer, as que ainda hoje devem estar com suas sondas não tripuladas indo para o fundo do Universo, marcos da sabedoria humana, lançadas a partir de 1972.

Placa Pioneer, lançada ao espaço em 1972.

Um amigo relembrou as Placas Pioneer, mensagens siderais gravadas em ouro no interior das sondas para avisar possíveis resgatadores extraterrestres que não somos só bactérias por aqui. Um dos idealizadores da mensagem nas placas: Carl Sagan. São fantásticas, com informações de localização e essência de nossa humanidade. Em uma delas, um casal antropomorfo perfeito, com o homem com a mão levantada, em sinal de cumprimento. Lembro do frisson de feministas da época, questionando por que apenas o homem estaria com a mão levantada. Sagan explicou que não queria induzir nossos vizinhos galácticos a pensar que éramos seres que andávamos todos com as mãos levantadas.

Toda essa introdução para lamuriar e alertar. A maior parte das sociedades, e especialmente o Brasil, nunca deram a digna importância para a Ciência. Quase sempre o conhecimento científico foi encarado como ferramenta ou entretenimento, ao invés de esteio da sobrevivência e evolução da humanidade. As nações que perceberam o poder do método científico em suas decisões de poder, hoje dominam o mundo. Não são os países religiosos ortodoxos, não são os países repletos de ideologias progressistas que capitaneiam o planeta. São os países que investem dinheiro, educação e respeito para a Ciência.

Hoje, em meio a todos os apelos por ciência e vacina, ciência e remédios, ciência e salvação das pessoas, transborda a hipocrisia. A mesma falsidade que permeia os discursos obscurantistas do passado, da Idade Média, do período pré-guerras mundiais. A era do hedonismo e do negacionismo, frutos, por ironia, do progresso tecnológico advindo da Ciência, terá que, para preservar o que resta de civilidade e natureza, que parir aos montes resistentes, parir entusiastas do conhecimento e da humildade. Gente como Sagan, gente como as que sabemos todos que existem ainda por aí encantados com as Ciências da Terra, da Natureza e do Universo.


Dr. Fábio Augusto da Silva Salvador

Geólogo (Unesp) e Doutor em Engenharia Mineral (USP). Perito Criminal há 27 anos, sendo os últimos 17 na Polícia Federal. Ex-Diretor Técnico-Científico e atual Representante da Initiative on Forensic Geology (IUGS-IFG) na América Latina.



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